sábado, 3 de novembro de 2007

O Umbigo Ambíguo

Era uma vez um umbigo ambíguo que por ser ambíguo tinha dificuldade em dar-se com quem quer que fosse. Todos o achavam estranho, como não é de estranhar. Precisamente por ser um tipo incerto ninguém o queria por perto e o seu lado obscuro tornava o contacto com ele extremamente duro.

Dura era a existência do umbigo ambíguo, coitado, que nunca devia ter hesitado em mudar de vida quando essa mudança mais lhe foi que pedida. Não o fez, perdeu a vez. E, por isso, foi sempre infeliz, desde petiz.

Dias volvidos e esquecidos passaram sem que o umbigo ambíguo quisesse ou pudesse sequer mudar. Mas o dia chegou e tudo mudou. Ou então, não.

O facto é que o umbigo ambíguo bem tentou (e muito se desunhou) para fazer amizade de verdade. O primeiro "candidato" foi um abcesso com sucesso, mas a coisa não vingou. Depois veio o dente de um pente, mas um dia descobriu que afinal ele gostava mais do pêlo de um camelo que, entretanto, tinha escovado com especial cuidado. Mais tarde, em desespero de causa, decidiu fazer uma pausa e conheceu uma cadeira espreguiçadeira. Essa relação, calma e sem qualquer preocupação, tinha tudo para resultar e resultou… mas só enquanto durou.

Cansado e desanimado, o umbigo ambíguo esteve prestes a decidir que ia desistir. Até que, sem mais quê nem para quê, se cruzou com o joelho de um coelho, que lhe disse "Olá! Então, como está?". Aquela situação causou-lhe muita confusão. "Os coelhos não têm joelhos!", disse o umbigo ambíguo. "E os umbigos não deviam ser ambíguos! Deviam ser só umbigos, normais e nada mais!", retorquiu o joelho do coelho.

E, de facto, (nem um nem outro) não eram normais, o que (a um e a outro), os distinguia dos demais. Ao que se sabe, aquela amizade de verdade surgiu e não mais fugiu. E é isso mesmo que faz o mundo girar sem parar. O abcesso continua com o seu sucesso. O dente do pente ainda se dá bem com o pêlo do camelo e que por ele continua a ser escovado com cuidado. Quanto ao umbigo… continua ambíguo e quase sem ninguém por perto, é certo. Mas, agora, pelo menos, o umbigo ambíguo já tem um amigo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O autocarro que passou ao lado de uma grande “carreira”


Na vida, por vezes, há frases que – parecendo não ter nexo e terem vindo do “nada” – fazem um sentido imenso cerca de quatro segundos após as termos proferido.

Esta é uma delas.

O trocadilho – inicialmente involuntário – da “carreira” (carreira “profissional” e/ou carreira=viagem) falhada por um autocarro que terá ficado aquém das expectativas é um rasgo de estupidez genial (ou genialidade estúpida, como se queira ver a coisa). Mas é um excelente trocadilho, sem dúvida.

A partir dele, apetece contar a patética e desconsolada história de um autocarro que um dia sonhou ser um veículo de longo curso, luxuoso, sempre cheio de turistas bem parecidos, bem vestidos, endinheirados e muito animados, “armados” com boas máquinas fotográficas (analógicas e digitais) “até aos dentes”, rodando de cidade em cidade, passando pelos monumentos mais marcantes, as praias mais bonitas, as paisagens mais arrebatadoras e pernoitando junto aos mais luxuosos hotéis.

Mas algo terá corrido mal e esse sonho não se concretizou.

Um risco maldoso feito na pintura, um condutor de outro carro com um copo a mais que o terá abalroado deixando uma mossa na chapa, uma pedra atirada por um camião em andamento que lhe quebrou o vidro pára-brisas, … sabe-se lá o que lhe terá acontecido para ter acabado numa oficina de uma terreola (uma vila do interior), infecta de óleo queimado e cheiro a cuprinol e tinta esmaltada de qualidade duvidosa.

O que parece certo é que o autocarro ali terá ficado por tempo indeterminado, esquecido ou não recuperado por quem o devia ter levantado, mas talvez tivesse entrado subitamente em processo de falência.

Como o tempo passa – e não perdoa – o autocarro terá apodrecido, empoeirado, ficado sem travões, sem óleo, com ferrugem por todo o lado. Como o tempo passa – e não perdoa – alguém terá acabado por precisar de um autocarro para fazer transporte de velhos e crianças entre o Centro Social e a Cantina do vilarejo. Coisa de 5km de cada vez, duas… três vezes ao dia, ida e volta.

Nenhum autocarro pode sentir-se bem com isto, tendo um dia sonhado ser um veículo de longo curso, luxuoso, sempre cheio de turistas bem parecidos, bem vestidos, endinheirados e muito animados. E este não terá fugido a essa regra.

A grande carreira que um dia desejou ter-lhe-á passado ao lado. É pena… mas proporcionou um excelente trocadilho… ou se calhar foi o trocadilho que proporcionou uma boa história.