Ciclicamente, durante duas semanas, os políticos saem dos seus casulos (gabinetes com ar condicionado e mais ou menos mármore e madeiras envernizadas) para se enfiarem - sim... é mesmo este o termo - naquele que julgam ser o país real.
Gosto sempre dessa suposta crença que os políticos têm, de que vão sentir o que sente o português comum, nas ruas do Portugal "normal". Gosto porque é uma mentira que julgam piamente ser verdade, tantas foram as vezes que a repetiram, mentalmente nas suas próprias cabeças e/ou à frente de um "espelho meu, espelho meu..." que os engana toda a santa vez que se põem à frente dele.
É interessante que durante as campanhas eleitorais se passe a ideia de que os candidatos desejam o contacto directo com o povo, quando o que se quer na realidade é ser bajulado pelos seus apoiantes de sempre. Apoiantes... militantes... chame-se-lhes o que se quiser... são seres curiosíssimos - davam excelentes estudos sociológicos, todo e qualquer um deles - sejam os que em determinada localidade estão à espera para bajular o líder que os visita ou os que vêm de comitiva e bajulam o líder onde quer que seja, de forma (quase) profissional, pintando da cor do partido, antes, durante e depois da passagem do líder - e com tudo o que se lembram - as ruas previamente escolhidas para representar o tal país real. Ruas visitadas sem fato, sem gravata, de manga de camisa, de calça de ganga... Porra, que o homem é mesmo um de nós! - alguém o há-de pensar. Um voto, logo ali! Tudo conta.
Durante quinze dias, o país visitado pelos políticos tem muitas feiras, muitas festas, muitos beijinhos, muitas peixeiras, muitas bandeiras, muitos panfletos, muitas t-shirts garridas com frases curtas de "Mudança" e "Confiança", muitos bonés, e muito sei lá mais com quê... Um país irreal, no fundo; só real durante aquele tempo, de carros coloridos com megafones, de almoços-convivio, de promessas, de acusações aos outros partidos com que no futuro se terá de fazer alianças.... Enfim. Os mesmos dias em que, subitamente, a democracia significa, afinal, não que se diga livremente o que se pensa mas sim que ninguém pode discordar do líder partidário que contacta com o povo. Valha-nos Deus se assim acontece! Por ser tão rara essa visita, talvez o povo tenha mesmo esse dever de se sentir agradecido e não afrontar o líder, até porque fica mal nas reportagens da televisão às oito da noite, quando um bate-boca corre mal. Por vezes acontece. O repórter divulgou, o malvado! Alguém viu. Porra, que o homem é malcriado. Um voto perdido, logo ali. Tudo conta.
Por isso, lá vêm os apoiantes, fiéis, leais - quais cãezinhos que protegem o dono - a afastar possíveis detractores ainda o líder não passou naquela arruada... perdão!... naquela "onda de vitória" (oiço isto todas as campanhas, de há uns anos para cá, mudando apenas, por vezes, o termo vitória por dinâmica; enfim... pormenores). Por vezes a coisa não corre bem. Há arrufo, uma chapada ou outra, aqui e ali, mais qualquer coisa, de vez em quando... No fundo, coisas que acontecem no dia-a-dia do tal país real - pensam os candidatos... ou pelo menos, parece que pensam, porque desvalorizam sempre os desacatos. Desde que o repórter não tenha visto... tudo bem.
E depois, no fim de tudo, vai-se a votos e... tudo pára. Param as palmas, as frases feitas, os slogans, os comícios, as arruadas, as feiras, os beijinhos, as bandeiras... e pronto. As peixeiras voltam a ser lembradas na próxima campanha. Voltam-se a vestir os fatinhos. Tudo volta à normalidade.
O país real cansa! - dizem eles, que a partir dali voltam a preferir o conforto do país real das conferências de imprensa, dos Passos Perdidos, das Comissões Parlamentares, dos comentários políticos nas TV's, das inaugurações, das visitas de ao estrangeiros, das negociações de orçamentos, da nomeação de assessores... A "Mudança" e a "Confiança" continuam a ser as palavras vãs que sempre foram mas voltam a ser guardadas numa qualquer gaveta de uma secretária de madeira envernizada num gabinete com mais ou menos mármores e com um bom ar condicionado. Que mal passei eu na campanha!... Tanto calor!... Suei tanto!... Tanto aperto!... Tanta gente que me queria ver, apertar a mão, mostrar-me a sua confiança... Vida dura, aquela, de contactar com o povo do país real, ouvir as suas preocupações... não é, espelho meu?...








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