terça-feira, 14 de abril de 2009

A (perdida) Técnica do Tremoço*

o que é isto?

* - Este post contém uma sincera homenagem ao melhor futebolista português de todos os tempos (para os leitores mais novos, um aviso: Não! Não é o Cristiano Ronaldo!), Eusébio.


Se há coisas aborrecidas na vida, uma delas é perceber que se perdeu algo. Ninguém gosta de perder nada. Chaves de casa, chapéus de chuva, aquele amuleto da sorte, o número de telefone da louraça a quem se pagou um copo na outra noite, ... nunca é positivo perder-se alguma coisa. Nunca.


Eu apercebi-me ontem que perdi algo que me era muito querido. E imensamente prático. Só que, de facto, não tenho mais. Perdeu-se. Perdi. Lamentavelmente.



Durante a realização de uma reportagem, que decorreu num café da Charneca da Caparica, a larica apertou e - "Em Roma sê romano" - tive de pedir um pires de tremoços para enganar o estômago. Só quando comecei a consumir esse "marisco" delicioso (eis a prometida sincera homenagem ao "Rei" Eusébio), me dei conta de que já não como tremoço da mesma forma que fazia em tempos. Perdi a minha técnica de comer tremoços!



Ainda que perceba perfeitamente que esta terrível notícia não tenha bem o mesmo impacto nos outros do que em mim, há que reconhecer que não deixa de ser uma má nova. Porquê? Nunca é positivo perder-se alguma coisa. Nunca.


Eu sempre tive um certo jeito para comer tremoços. Dava uma pequeníssima trinca na casca do tremoço e depois apertava-o entre dois dedos (o polegar e o indicador), por forma a que o tremoço fosse projectado (com uma velocidade considerável) directamente até ao fundo do céu da boca, no qual fazia ricochete para, por fim, se quedar na língua. Só depois disso tudo começava a mastigação do tremoço. Era um processo que decorria, todo ele, maravilhosamente bem e com o qual estava perfeitamente satisfeito.


Só que, actualmente, pareço já não conseguir pô-lo em prática. Comer tremoços, para mim, é hoje um processo totalmente diferente. O que percebi ontem foi que ainda dou a pequena trinca na casca do tremoço mas já não sou capaz de projectá-lo para o fundo do céu da boca com o aperto digital "polego-indicadoral". Em vez disso, o que faço é um deprimente chuchar do tremoço para que ele large a casca e mergulhe na boca para, de imediato, começar a mastigação. Uma coisa sem jeito nenhum - há que dizê-lo -, com a qual não estou minimamente satisfeito mas que tenho de aceitar, visto que perdi todo o talento que tinha para comer tremoços com o estilo de outros tempos. Tempos idos, que - infelizmente - não voltam.


É um anúncio que faço ao mundo com alguma mágoa, confesso. E faço-o talvez por isso mesmo. Porque guardar mágoas "cá dentro" não é algo com que se ganhe muito. Mesmo que se tratem de mágoas relacionadas com simples tremoços e com a técnica usada (mas, entretanto, perdida) para os comer.