E pronto. Começou o Mundial. E com o Mundial começou também o meu imbróglio.
De dois em dois anos, lá acontece. Torço por duas equipas. Não espero que todos me entendam mas quem é ou foi emigrante (e feliz, no país que o recebeu) saberá do que estou a falar e, eventualmente, rever-se-á até nas minhas palavras.Nasci na Alemanha. Lá vivi até aos quatro anos de idade. Lá vi a bola rolar pela primeira vez. E lá aprendi (ainda para mais, tendo nascido na década de 70) que o futebol era qualquer coisa como “11 para cada lado e no fim ganha a Alemanha”.
Naquele país, pode-se ter dúvidas da existência do Pai Natal (figura, aliás, muito querida na cultura germânica – e não é por causa da Coca-Cola, já que eles têm um Santo Nikolaus só para eles!) mas NUNCA que a Alemanha é pátria de bola a sério. Por cá, na pátria da “quinas”, nós também achamos o mesmo e vivemos a bola tal e qual comemos torresmos [gostamos sempre!... mesmo que nem sempre seja(m) de grande qualidade]. A diferença é que a precisão norte-europeia (que rendeu aos alemães três títulos mundiais e outros tantos da Europa) não se aplica ao futebol luso. Até jogamos mais bonito (quando temos gente para isso) mas títulos não é coisa que abunde por estas bandas. Pena.
Tendo estas duas referências (e influências), acabo por ter sempre duas “camisolas” a defender nas grandes competições.
Vantagens: tenho mais hipóteses de festejar títulos; posso vibrar com futebol eficiente e geométrico ao mesmo tempo que vibro com futebol fantasioso e mais emocionante; posso acompanhar os jogos ao sabor de chouriço assado português e cerveja alemã (associação que aconselho vivamente para quem nunca experimentou) …
Desvantagem (só uma): quando as duas equipas se defrontam é uma maçada. Hesito sempre mas (claramente, em meu prejuízo) acabo sempre por optar por Portugal.
Na verdade, aborrece-me que seja costumeiro a Alemanha bater Portugal e que haja apenas uma vitória claríssima deste lado (no Euro 2000, por 3-0; golos – todos! … quem diria?! – de Sérgio Conceição). E aborrece-me ainda mais quando, como em 2006 e 2008, os jogos perdidos por Portugal sejam decisivos (em 2006, podia ter dado o 3º lugar no Mundial e em 2008, o acesso às meias-finais). Também me chateia que um dos episódios mais tristes do futebol lusitano tenha acontecido num jogo com a Alemanha. Era de qualificação para o Mundial 98… Mas aí a culpa foi de um francês, o árbitro Marc Batta (o que ajuda muito ao meu asco de estimação pelo futebol gaulês).
Ainda assim, continuo a gostar muito de ver a Alemanha jogar (e este ano vibro especialmente, desde a goleada fantástica aplicada à Austrália, com futebol de primeira água da “Mannschaft”) e sinto que alguns alemães, mesmo sem ligações a Portugal, gostem de ver a nossa Selecção dar espectáculo (quando dá…).
Em comum, acho eu, teremos sempre… Estugarda. O jogo em que Carlos Manuel fez maravilhosamente o impossível, apurou Portugal para o Mundial de 86, sem eliminar a Alemanha que, no México, foi vice-campeã (Maradona… Nada a fazer...). Um golo maravilhoso. Que encantou Portugal e a Alemanha, imbatível há décadas até aquele momento. Bem batida. Com um toque de magia. Lembro-me de ter ouvido que os adeptos germânicos no estádio aplaudiram o tento do "6" português. Nesse dia, acho que até os derrotados jogadores alemães se sentiram privilegiados por estar em campo e poder presenciar aquela obra de arte ali no relvado, de tão perto.
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Texto publicado, originalmente, no jornal









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