quinta-feira, 28 de maio de 2009

Da Cassete

o que é isto?

Comecei a trabalhar aos 17 anos, na rádio local que, na altura, funcionava no prédio onde eu morava e onde os meus pais ainda moram. Num domingo à tarde, por volta das sete horas, "abri" o microfone e fiz uma voz farsola que haveria de ser o primeiro registo público do Marco António, futuro profissional da Comunicação Social. Desde esse momento até hoje, nunca gostei de me ouvir (e, actualmente, também de ver). Acho que acontece a (quase) todos. O que não acontece a ninguém, hoje em dia, é ter de improvisar em tudo para levar a cabo uma reportagem, uma emissão, um directo... Está tudo "tratado". Alguém está responsável por fazer imagens, recolher som, editar uma peça, fazer a ligação via satélite. A quem dá a cara resta fazer bem aquilo que tem a fazer. Nem sempre acontece... mas isso são "outros 500 paus". Nesse domingo à tarde - há 16 anos - em que falei pela primeira vez na rádio, descobri que fazer aquilo seria muito mais do que "dizer umas coisas". Naquela rádio, naquela altura - em 93 -, tudo o que via à volta da cadeira que ocupava no estúdio eram... cassetes. Cassetes das quais passava a música que entrava na emissão, cassetes que continham os spots publicitários que compunham os intervalos, cassetes com os RM's (registos magnéticos) das declarações a incluir nos jornais da estação, cassetes dos genéricos dos mais variados programas (e também de alguns programas inteiros que as editoras nos enviavam) e cassetes que tinham até uma cópia do sinal horário, para quando o interruptor que o lançava porventura avariasse (e avariava muito). Posso dizer que, para mim, o início de carreira na Comunicação Social foi isto mesmo. Cassetes e mais cassetes. Cassetes que "pistei" (todinhas) com o dedo - usar canetas BIC para acertar a fita sempre foi "coisa de meninos". E deck's leitores de cassetes que eram um desafio ainda maior que as próprias cassetes em si. De tão usados, nenhum deles tinha sequer botões e os comandos eram accionados por mãos que tinham de entrar no aparelho para que as pontas dos dedos tocassem nas patilhas do Play, do FForward, do Rewind, do Stop, do Pause... Do Eject não era necessário, porque simplesmente os deck's não tinham portas (as cassetes tinham de ser colocadas e retiradas com uma certa mestria). E quando nada disso funcionava, uma pancada bem aplicada no aparelho lá desbloqueava a situação e a música seguia; meio aos solavancos... mas seguia. Esta manhã andei à procura de uma cassete que gravei numa das últimas rádios por onde passei. Queria gravar em MP3 para a posteridade umas coisas muito embaraçosas mas divertidíssimas que gravei em 2000, quando ainda não tinha as obrigações que a Carteira Profissional de Jornalista me impõem hoje em dia. Não consegui. Os deck's da minha aparelhagem de casa não corresponderam ao que lhes era solicitado: fazer o seu trabalho. Dois, lado a lado, na minha aparelhagem Grundig Mini 10, comprada há muitos anos (demasiados, para me lembrar exactamente quando), fizeram "equipa" e quase me arruinaram a cassete que queria reproduzir para um gravador digital. Ainda a aprisionaram (primeiro um, depois o outro) por uns segundos. Forcei as portas (primeiro uma, depois a outra). Largaram a pobre cassete, sem comer a fita, mas agora os deck's não fecham, não lêem, não "tocam", não nada. Experimentei também o leitor de um rádio portátil que está na cozinha. Não comeu a fita, não prendeu a cassete... mas também não fez o que se lhe exigia. Nem um som se ouviu. Porque a fita não rodou, não leu, não "tocou", não nada. O tempo da cassete passou, claramente. É agora mais um testemunho histórico que uma peça de trabalho ou de lazer. Agora é só isso. Um testemunho da história. Para mim, a cassete foi, a dada altura, o objecto mais importante da minha vida. Foi o arranque para aquilo que hoje faço; muito mais do que uma caneta, a cassete foi o meu primeiro instrumento de trabalho como jornalista. Ainda antes disso, quando eu era miúdo, foi o meio de guardar genéricos de televisão (tenho de encontrar - só para não a perder de novo - essa cassete com som manhoso que fiz com um gravador encostado à coluna do televisor, à espera das emissões da Europa TV, do Countdown, do Agora Escolha, do Telejornal, das Misteriosas Cidade de Ouro, de sei-lá-mais-o-quê...), foi a forma de tentar conquistar miúdas (sim... também fui um fã das "mix-tapes" e fiz algumas das mais lamechas da história das próprias "mix-tapes"). Cresci com as cassetes. Ainda tenho umas cento e tal guardadas na casa dos meus pais. Mas a verdade é que são obsoletas. Não quis pensar nisso nem ligar muito quando o leitor do meu carro (o que tive antes do actual) decidiu "entrar em coma" para não mais sequer aceitar uma cassete que fosse. Talvez fosse "o princípio do fim". O meu carro agora só tem leitor de CD e MP3. É claro que ainda há e sempre haverá leitores de cassetes onde posso ouvir e reproduzir as que tenho. Mas tenho de me mentalizar. Pelo menos, em minha casa, já não será porque, em minha casa, esse tempo é já passado.

Em mim, resta agora nostalgia, tristeza, um sentimento de impotência perante a força de inevitabilidade que o tempo tem de seguir em frente sem se preocupar com o que deixa para trás (ao tempo não perdoo, por exemplo, o fim das Polaroid) e a dúvida de como raio vou passar o som daquela cassete embaraçosa para um formato que perdure mais que o tempo que a fita onde está registado tem "de vida". Tenho até pena do fim da mítica "Cassete Pirata", vendida na feira, muito antes dos CD's, dos DVD's e da ASAE. Se calhar, estou só a ser saudosista. Mas custa perceber que BASF, Maxell, Fuji, TDK, Philips, JVC, C60, D90, E120, Ferro, Tipe I, Tipe II, Chrome são conceitos que - associados uns aos outros - muito em breve não passarão de simples memórias. Pelo menos para mim, são das melhores memórias que alguma vez terei.

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