Por minutos, andei perdido na aldeia à procura do salão do barbeiro, que a minha mulher me tinha dito ser "ao lado" da Junta de Freguesia. Passei pela Junta, olhei em volta, ... nada. Ou, melhor, nada excepto um café, uma mercearia, ... uma rua, com casas caiadas, de um lado e do outro. Barbeiro... nem vê-lo. Desci a rua (do Ouro, como nome igual mas tão diferente da da Baixa de Lisboa...) e nem uma alma a quem perguntar onde ficava o salão do barbeiro (ao meio-dia de um 3 de Outubro que mais parecia 3 de Agosto em pleno Alentejo havia pouca gente disposta a sair do fresco do entre portas, verdade seja dita).
Finalmente, uma senhora apareceu por ali, com duas sacolas nas mãos. Antes de me dar a (simples) informação que precisava, aproveitou para me fitar de cima a baixo e gozar o prato de me dizer "Claro que não é daqui! Eu conheço toda a gente!"... o raio da velha!... deve ser aquela que faz o "relatório" de quem vai e quem falta à missa ao domingo, está visto.
Lá acabei por ir para onde ela me mandou. Chegado ao (suposto) local do salão... nada. Ou, melhor, nada excepto uma cortina de fitas, igual a tantas outras que se vêem nas portas de quase todas as casas do povo. Ao sair de lá um homem percebi afinal que não estava perdido de novo. Isto porque entre as fitas que ficaram a dançar de um lado para o outro lá consegui, finalmente, vislumbrar a cadeira que me iria receber dali a momentos. Bastou isso. Aliás, teve mesmo de ser suficiente. Aquela porta nunca que nunca denunciaria ser mais do que uma simples porta, quanto mais ser a barbearia da aldeia.
Mal entrei, já estava fascinado por aquele lugar, que parecia saído de um filme dos anos 50. Ou então - agora que penso bem nisso - que dessa década nunca terá saído, na verdade, como se o tempo, ali, tivesse parado. Ou quase.
Duas cadeiras, lado a lado, senhoras de certa idade, bem apessoadas e de bom cabedal, ainda que visivelmente cansadas, mostravam estar ainda ali para as curvas mas só uma recebia clientes pagantes para serviços mais ou menos rápidos, de preço variável, consoante a necessidade que o homem em causa precisasse satisfazer. Os restantes móveis eram também antigos, certamente com o dobro da minha idade ou pelo menos parecendo serem "jovens", assim. As paredes davam a todo o cenário o retoque final do 'kitsch'. Parte cimeira em branco sujo (amarelado pelo tempo); mais abaixo, com azulejos azul-bebé, impecavelmente limpos, reluzentes, perfazendo uma tela de pequenos espelhos 10x10 só que... cor de piscina. Por fim - qual cereja... perdão... quais cerejas no topo do bolo! - a "decoração". Símbolos dos Sporting, vários, sendo um deles num espelho com uma moldura que, sinceramente, já não se usa. Recortes de revistas "da moda", com especial incidência - o pormenor mais "off" de todos - nas jovens estrelas dos "Morangos com Açúcar". Um rádio Phillips All Transistor de certeza no salão desde os anos 60 ("mas que ainda dá!", garante o barbeiro). Dois calendários, com mulheres desnudas mas com as vergonhas tapadas por pequenos pedaços de papel estrategicamente colados na pélvis das moças e maçarocas de milho dependuradas no mesmo prego que sustinha cada póster, o que atrapalhava imenso a vista sobre a "paisagem" das fotos. E um pequeno cartaz, mesmo ao cantinho do salão, da mítica série... "Bonanza". Eu, que sou um rapaz simples, fiquei extasiado com aquele quadro, confesso.
O barbeiro, na casa dos seus sessenta (embora bem disfarçados), exibia um bigode que me deixou algo apreensivo por momentos. Era mal feito, mal aparado, ... feio, há que dizê-lo. E isso só podia significar uma de duas coisas. Ou era homem para não ter grande talento para o ofício ou passar uma vida a tratar de pêlos e cabelos aos outros não quer dizer que seja coisa que se faça com a mesma qualidade a si próprio. Por sorte, o caso era esse mesmo.
Ao fim de cinco minutos, já a conversa ia adiantada. Já ele sabia quem eu era e o que fazia (o que é facto é que um minuto bastou para isso - terras pequenas...) e já eu sabia que ele era familiar de uma vizinha da avó da minha mulher, que tinha uma sobrinha que também tinha estudado em Coimbra (e que por lá ficou a trabalhar) num curso da mesma área que eu mas, acima de tudo, que ele tinha sido Presidente da Junta - a tal que era ali ao lado - durante uns bons anos.
Falou-me do amor pela terra que nunca deixou, apesar da filha viver numa vila um pouco maior e melhor não muito longe, das maravilhas de feira anual de vinhos e petiscos que um dia terei mesmo de visitar, em Cuba que também não fica a grande distância. Falou-me de ter sido autarca, presidente, candidato vencedor, primeiro, e vencido, depois, numa eleição em que a direita conseguiu uma inédita vitória pelas bandas do coração do Alentejo. Das alegadas tramóias do pai da candidata que o derrotou nas urnas, de como ele dava "uma torradeira, ali... um maço de notas, acolá" e da aparente doação ao clube de futebol da terra, que pouco depois viria a fechar por falta de verbas, mesmo antes da então Presidente da Junta se ausentar da aldeia para não mais regressar, nem para concorrer a novo mandato.
Falou mal, falou bem... falou com paixão de tudo aquilo que falou. Diz que falou "duas vezes para a SIC, até". E eu, maravilhado, ouvi-o, porque é de pessoas genuínas que gosto realmente. Falei-lhe também eu da minha família, que ele conhece de ouvir falar (vou a ver e fala-se de nós três - de mim, da minha mulher e da minha filha de dois anos - muito mais do que eu pensava - ou gostaria - na aldeia que visito só de vez em quando, por uns dias...). Falei-lhe do que faço e de quanto me fascinava uma foto que via ao lado do "Hoss" e do Ben Cartwright (a inesquecível personagem de Lorne Green no "Bonanza"). Uma fotografia muito antiga, a preto e branco, de uma equipa de futebol de que vim a saber... o barbeiro fazia parte do "onze inicial".
Ficou marcado novo corte de cabelo para "quando calhar". Ou então uma simples visita à barbearia quando voltar à aldeia, "só para pôr a conversa em dia, amigo!"
Gosto de pessoas assim. É bem provável que volte mesmo lá. Duas coisas terei como certas, pelo menos. Uma, é de que conversa da boa não faltará. Outra, é de que não volto a andar perdido à procura do barbeiro junto à Junta.









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