terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Tu não és estranho. És diferente."


A frase não é minha mas sim de uma amiga, em relação a mim. Foi dita - ou, melhor, escrita - no Facebook, em jeito de comentário a um post que coloquei, comunicando aquilo que me apoquentava a alma no primeiro dia da minha segunda semana de férias (que, por infortúnio meu, será passada em casa e não no adorado Alentejo). Aliás, se a frase fosse minha, eu diria que não sou diferente mas sim, definitivamente, um tipo estranho.

Isto porque o que me atormentou todo o dia foi uma questão de... rolhas doseadoras de azeite. Sim. Leu bem. Rolhas doseadoras de azeite, para acoplar a uma qualquer garrafa de vidro e assim poder cozinhar sem ter a preocupação de inadvertidamente azeitar demasiado o que quer que vá cozendo no tacho ou na sertã.

Bem vistas as coisas, é uma preocupação válida para qualquer pessoa que goste de cozinhar. Certo. Mas também talvez seja - é mesmo! - um tormento um tanto ou quanto palerma para quem devia ter juízo suficiente para não perder tempo com ralações que envolvam rolhas cujo único propósito é reduzir o fluxo de óleo de azeitona entre um recipiente e outro.

Provavelmente, a minha amiga estava só mesmo a ser... amiga. Muitas vezes, dizem-se mentiras piedosas como "Tu não és velho. Tens é muita experiência de vida", "Tu não cozinhas mal. EU é que estou de dieta", ou "Não ficas nada feio com essa roupa. Aquele outro blazer é que te fica tão bem que devias ir já vesti-lo e trocar todo o resto da indumentária porque essa não 'joga' com esse tal casaco. Vai lá rapidinho que eu espero aqui. Vá! Já!"

Naquele momento tomei a frase dela como um elogio. Passadas umas horas depois... já não sei se a intenção dela foi assim tão elogiosa.

Eu sou o tipo que, de um momento para outro, se lembra de que a palavra alcaparra devia ser mais vezes dita em voz alta e escrita em documentos oficiais. Na verdade, nem a Comunicação Social dá grande atenção à alcaparra; e como é um simples legume, dificilmente se envolve em acidentes graves ou polémicas que justifiquem falar-se muito dela. Soube há dias que ela - sim, ainda estamos a falar da alcaparra - ainda tentou lançar o boato de que estava metida naquela coisa dos pepinos assassinos mas a coisa não vingou. Enfim. Azares que acontecem. 

O que me parece, sinceramente, é que o que a minha amiga quis foi conjugar numa mesma linha - apesar de que em afirmações diferentes, consecutivas - os adjectivos que me queria atribuir; mesmo dizendo que um deles não seria propriamente para atribuir-me... mas era. Ou, vá... talvez fosse. Ou não.

Certamente Freud diria, acerca disto, que me terá faltado em miúdo espreitar por (mais) buracos de fechaduras de chuveiros de casas de moças roliças e casadoiras. Com o que ele não contaria é que nos anos 80 já poucas fechaduras eram daquelas que davam para espreitar com resultados minimamente satisfatórios (pelo menos, para um dos elementos, de um dos lados da porta).

Sim. Sou estranho e diferente. Talvez seja, no mínimo, um pouco dessas duas coisas. E até me parece plausível que seja diferente dos outros tipos estranhos que por aí pululam. Não sei.

Seja como for, a minha amiga terminou aquele mesmo comentário com uma expressão apaziguadora, como quem passa a mão na crina de um potro que acabou de esporear. "Tu não és estranho. És diferente. E ser diferente é bom. Acho..."

Obviamente, aquelas reticências no fim de tudo acabam por me deixar mais matéria de reflexão - quem sabe para os restantes dias da minha semana de férias. Agora que já não preciso de me preocupar com rolhas doseadoras de azeite...

Ah! Quase me esquecia! Após o post em que falei desse objecto do meu desejo (porque não tinha - era esse o meu tormento), disseram-me onde encontrar e saí de casa de propósito para comprar um par e aproveitei a ida ao hipermercado para tratar logo também de lhes fazer o "test-drive" numas Ameijoas à Bolhão Pato, com coentros frescos e regadas com azeite devidamente doseado, claro.

Posso ser estranho e diferente. Mas tenho bom gosto. Acho... 







Sem comentários: