Nunca me aconteceu mas não deixa de me tocar directamente.
A divulgação na internet do video de uma conversa entre dois jornalistas e um comentador de um canal de televisão antes (muito antes) do início da transmissão de um jogo de futebol abriu mais uma fissura na já muito estilhaçada relação "jornalistas-clubes-adeptos".
Sim... Esta relação é sempre "a três", seja pelo simples facto de que os adeptos são o receptor do nosso trabalho (aquele que é transmitido - ou, melhor dizendo, apenas e só aquele que deve ser o transmitido publicamente), seja porque os clubes insistem em colocar o adepto na posição de "arma de arremesso" à Comunicação Social que (por culpa própria dos clubes, diga-se a bem da verdade) é o seu "inimigo número #1", só porque faz perguntas incómodas sobre assuntos incómodos que vão surgindo dia após dia (normalmente, vindos de dentro dos próprios clubes). E também porque, como todos os clubes desejam, não mostra apenas o que há de bom naquela instituição, mesmo que se fale muito do que há de mal em todas as outras.
O que se deseja mesmo, acima de tudo nos ditos clubes "grandes", é que o jornalista não informe, de todo (isso é perfeitamente secundário); mas sim que se "diga bem" deles (isso, sim, essencial e, na mente de alguns, obrigatório). Bem sei que há quem o faça e se diga jornalista. Essa até é outra questão, que não me interessa particularmente, porque nem eu sou assim, nem me dá algo diferente de asco o facto de partilhar um cartão (da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista) com essas... anormalidades do meu ofício.
Para mim, que também faço transmissões televisivas de futebol, estas situações em que surgem videos de conversas tidas em "Off" entre colegas, são como se me tivessem assaltado, com violência física. Como se me tivessem roubado as chaves de casa, sabendo a minha morada através dos meus documentos na carteira, também roubada no mesmo acto.
A partir do momento em que estes sons ficam disponíveis ao público que só tem o direito de nos ouvir desde o início da transmissão até ao intervalo e depois do reinício até ao fim do jogo (sim... não tem o direito de ouvir nada mais do que isso - tudo o resto é tão ou mais ilegal como fazer cópias de DVD's e mp3, violação de correspondência alheia, etc.) ficamos sujeitos a tudo. Principalmente, quando (como neste último episódio conhecido) um clube se manifesta oficialmente sobre o assunto, qualifica o que se ouviu (ilegalmente) como «intoleráveis» e até exige pedidos de desculpas (que - para cúmulo os cúmulos - consegue!) do canal de televisão que, em vez de simplesmente dizer «Não temos nada a pedir desculpas porque aquela conversa, oficialmente, nem existe», prefere ajoelhar-se perante a instituição e comunicar que vai instaurar os «procedimentos disciplinares adequados» em relação a uma conversa tida durante testes técnicos. Incrível!
Sobre isto, tenho a dizer que "intolerável" é um clube comunicar que «É daquilo que dizem nas nossas costas que melhor percebemos a intenção e o alcance dos comentários e observações que são produzidos publicamente». Isto é o mesmo que dizer "Quando virem jornalistas desportivos, partam do princípio que estão a falar pelas costas e, pelo sim, pelo não, o melhor é cortar o mal pela raiz. Se, depois afinal, se perceber que não estavam a falar mal - ou que só estavam a trabalhar, a relatar a verdade dos factos - paciência; pelo menos, fica-se com a certeza de que mal não falam mais." Os clubes, que lidam com as paixões dos seus seguidores e as manipulam conforme lhes convém, têm milhares e milhares num "exército" sem nome contra o "inimigo". E, um dia, este "modus operandi" vai dar (maus) frutos.
Não é raro estar ou ficarmos a trabalhar sós no meio de uma multidão, que não entende que um jornalista não são todos os jornalistas, que desde que a câmara e o microfone desligam até que volte a ligar os jornalistas não estão obrigados a relatar factos e até têm permissão para serem eles mesmos, seres humanos como todos os que os rodeiam naquele momento. Dizer "isto ou aquilo" de um jogador, de um treinador, fazer uma piada... toda a gente faz; num café, numa conversa de amigos... em todo o lado. E o mais curioso de tudo é que nós também sabemos o que dizem os clubes de nós nas nossas costas... e não é em nada melhor (é, pelo contrário, por vezes, bem pior) do que, por exemplo, uma piada ocasional sobre um guarda-redes que - dizem os factos - não tem estado bem quando muito prometia.
O que se prova é que lidamos com isso bem melhor.
Lamenta-se, de facto, tudo isto. É, aliás, uma expressão (o lamento) que, curiosamente, leio nos dois comunicados lançados acerca deste caso em particular, de um lado e do outro. Acho até sintomático este quase "acertar de agulhas" - e de Português - para bater tudo "certinho", a "bota com a perdigota"... e que venham de lá esses paninhos quentes, para amainar a coisa e sermos todos amigos outra vez.
A mim, pelo sim, pelo não, só me vão "apanhar" a falar de passarinhos e das férias que nunca mais chegam, antes dos jogos. Obviamente, se uma dessas conversas vier ilegalmente a público, vão associar isso a outra qualquer coisa que lhes dê jeito, e fazer comunicados, e/ou impedir-nos de presenciar os treinos, e exigir pedidos de desculpas... tudo na mesma.
Tentarei evitar quaisquer referências culinárias. Isso é certinho e direitinho.