
«Don’t take it personally. All the questions, I mean. It’s for your own safety… and ours!», disse-nos o taxista que nos levou «a voar», entre o hotel e o aeroporto de Tel Aviv. (Sim… programar mal o despertador em dia de voo não é de todo recomendável. Principalmente em Israel.)
Naqueles quinze curtos minutos de viagem a alta velocidade, o condutor, na casa dos seus cinquentas-e-muitos, alternava a atenção nas três faixas da via rápida e no volante do Mercedes - novo, em estado impecável para um táxi - com algumas rápidas fugas do olhar para o espelho retrovisor, para falar connosco (eu e o repórter de imagem da TVI, João Pedro Matoso).
O tema de conversa foi a que se tem com qualquer estrangeiro que se apreste para deixar o país. Perguntou-nos com que impressão tínhamos ficado da sua cidade, nas pouco mais de 72 horas que passáramos em Tel Aviv. A nossa resposta foi extremamente positiva, até porque a cidade é, de facto, uma bela cidade, cosmopolita (a mais rica de Israel), com gente acolhedora e turisticamente fantástica. Único senão… «Pedem-nos os passaportes e interpelam-nos por tudo e por nada, a qualquer hora, em qualquer lugar!», dissemos. Bom… Isso e ver várias AK47 “passearem-se” pelas ruas, carregadas, ao ombro de jovens militares (demasiado jovens, pareceu-me; embora na verdade, pelo sim pelo não, também não lhes tenha perguntado a idade). Isso, confesso, é coisa para fazer alguma confusão. O experiente taxista sorriu e descontraidamente revelou-nos que também ele possuía uma arma, que a trazia no interior daquela viatura. «Praticamente toda a gente anda armada, em Israel», disse. E aí eu fiquei muito mais “descansado”, não haja dúvida.
Aquilo que não entendemos é, para os israelitas, perfeitamente natural. Os cortes de estrada aleatórios para controlo policial ou militar, check-points nas entradas e saídas das cidades, a desconfiança de todo e qualquer um em relação a todo e qualquer um… «Em cada israelita há um “polícia”, um “militar” ou até mesmo um “espião”. Eu posso ser taxista ou talhante… Na hora de defender o meu país, defendo-o como puder, ajudando com o que me pedirem; seja informações ou outra coisa qualquer», revelou o nosso último transportador em Tel Aviv, antes do voo para Portugal. Um outro condutor de táxi, no dia anterior, tinha-nos dito que, para além de taxista, era paramédico do Exército, na Reserva; que tinha de cumprir cerca de 30 dias por ano de serviço militar e que tinha esse espírito de missão por obrigação imposta pelo país e também por opção própria, apesar de ter amigos árabes, que um dia poderão estar do outro lado da “barricada“. «O Povo gosta de Paz. Não queremos problemas com ninguém. Mas aqui, estarmos seguros, é muito difícil.», foi uma coisa que ambos os profissionais do volante nos disseram. Entretanto, chegávamos ao check-point à saída de Tel Aviv e taxista aconselhou-nos a só mostrarmos os passaportes se nos pedissem, refreando o meu reflexo condicionado de o tirar da mochila, por me terem pedido para o mostrar imensas vezes nesses três dias. O militar que mandou parar o automóvel perguntou de onde éramos. Respondi que éramos portugueses e que estávamos de partida. Mandou-nos seguir viagem e o taxista partilhou um pouco mais de experiência acumulada: «Não lhes diga mais do que aquilo que lhe perguntam. Eles sabem quem vocês são, desde que cá entraram. Só querem saber se tudo “bate certo”.» Pensei de mim para mim: «De facto, fui um bocado totó, fui…»
Este cenário “big-brotheriano” é, no mínimo, assustador para qualquer amante da liberdade. Tel Aviv é a cidade mais liberal de Israel e ainda assim as medidas de segurança (reais, embora muito menos “à vista” que nos resto do país) são enormes. Imagine-se no resto do território. Sermos jornalistas de televisão também não nos ajudou a passarmos despercebidos - verdade seja dita - mas o facto é que mesmo quando nos deslocámos pela cidade sem a câmara percebemos que nada é deixado ao acaso, no que toca a tentar evitar o inevitável (é impossível pensar que Israel - dada a sua posição geográfica e política - não será alvo de futuros atentados).
Já alguma vez imaginou ter de passar por uma revista com detector de metais e ver as sua mala, mochila ou até carteira minuciosamente inspeccionadas à entrada de um centro comercial ou de uma loja de roupa, onde entra, só para “ver as modas“? É isso que acontece por aquelas bandas, em quase todos os estabelecimentos comerciais, desde mercearias e supermercados até lojas de artigos desportivos e hotéis (nenhum hóspede entra sem mostrar passaporte sempre que pedido e também há detector de metais à mão, para situações mais suspeitas). Um segurança está sempre à porta, não para evitar saída de produtos roubados mas sim para evitar a entrada de armas ou explosivos. Qualquer pequeno “ajuntamento” de duas ou mais pessoas num espaço público exíguo é merecedor de um controlo de segurança mais apertado. A população local habituou-se a isso. Nós dificilmente vemos aquilo como possível no nosso dia-a-dia. Mas o medo tudo justifica.
Nos Estados Unidos, a última grande polémica é a do zelo desmedido na revista corporal aos viajantes de avião. Depois do scanner de Raio X que mostra as pessoas totalmente nuas nos monitores dos seguranças dos aeroportos, as autoridades definiram que aos indivíduos suspeitos, aos que recusem a inspecção pelo scanner ou até mesmo a pessoas simplesmente escolhidas aleatoriamente seja obrigatório aquilo que muitos americanos caracterizam de um atentado à privacidade. A nova norma de revista corporal vai mais muito além daquilo que se pratica nos aeroportos do resto do mundo. Permite apalpação dos genitais, das mamas, revista ao interior… da roupa interior… Há coisas que se fazem nestas revistas (mesmo que por cima da roupa) que só se vêem em filmes com forte carga erótica… mas com mais sensualidade (no caso dos filmes, claro). Neste período festivo de Acção de Graças, muitos sobrinhos do Tio Sam optaram por visitar a família viajando de carro ou comboio, em detrimento dos voos internos. As empresas de aviação clamaram desgraça e quem viajou de avião decerto não gostou nada de ser apalpado sem direito a um prévio cafézinho, jantar ou cineminha, para conhecer melhor o funcionário da segurança que, entretanto, passou a conhecer o seu “eu” tão bem quantos os parceiros íntimos dos revistados.
Por cá, ficamos chateados só por ter de nos descalçar ou tirar o cinto das calças para passar pelo detector de metais nos nossos aeroportos (eu fico!), mesmo quando há cimeiras da NATO em Lisboa. Tanto quanto ficamos aborrecidos por ter seis quarteirões (vulgo, Parque das Nações) com medidas de segurança mais apertadas e uns quantos desvios de trânsito durante quatro dias, pelo simples (e “irrelevante”) facto de lá se reunirem umas quantas dezenas das pessoas mais importantes do planeta. É desagradável? É. Mas relativizar, por vezes, far-nos-ia muito bem.
Ir a Israel por três fez-me bem nesse sentido. Relativizei. Aceitei que, por estar ali, teria de jogar pelas regras da “casa” e aproveitei para aprender qualquer coisa para o futuro.
Não vou dizer que acho inacreditável tudo o que se faz actualmente em nome da segurança interna de certos países, porque o passado recente diz tudo acerca da probabilidade de haver confusão da grande, pelo menos em determinadas partes do mundo. Mas que é extremo, em certos casos, é. E que se estranha e dificilmente se entranha… também.
Não saí de Israel sem experimentar um pouco dessas medidas extremas. Apesar de a viagem de táxi ter sido realmente feita «a voar» e de termos chegado ao check-in do voo da Air France com 90 minutos de avanço antes da hora de partida (tempo mais do que suficiente em quase todo o resto do mundo), o balcão estava vazio e logo nos perguntaram por que tínhamos chegado tão atrasados. Atónitos, respondemos o óbvio, que nos atrasámos devido à parvoíce de quem programou mal o despertador (para ser mais exacto, eu). Óbvio para nós… obviamente suspeito para os “funcionários da Air France” (jovenzinhos, tais quais os militares das AK47 que tínhamos visto nas ruas de Tel Aviv; só que de farda diferente e estes últimos - tanto quanto me apercebi - desarmados; mas não garanto), que nos separaram imediatamente para conversarem connosco, individualmente. Perguntas, mais perguntas, perguntas repetidas três, quatro vezes, em várias ocasiões durante a conversa. Aconteceu comigo e com o João Pedro, simultaneamente, perante duas (adivinho eu) psicólogas que nos perguntaram vezes o que fizemos em Tel Aviv, quando, a que horas, com quem, há quanto temos nos conhecíamos os dois, o que fizemos nos tempos livres, se éramos amigos ou só colegas, que provas físicas tínhamos do trabalho que fomos fazer… e, no meu caso, até quem era a mulher que aparecia numa foto nas costas de uma folha de rascunho (onde tinha imprimido uma cábula com os resultados do Grupo B da Liga dos Campeões). Era a minha mulher. «Como é que ela se chama mesmo…?» (seguido de um olhar de baixo para cima, à espera do vacilo) «Carmen.» (seguido de um olhar de “Não achas que estás a pisar o risco?!” - contrariando aquilo que o taxista me tinha dito uns minutos antes, achei que aquela pergunta era a “primeira a mais“, naquilo que eu poderia levar a peito; a minha paciência tem limites e a simpatia do condutor do “carro de praça” não dava direito mais tolerância de “porreirismo lusitano“). A “entrevista” acabou ali. Mas foi seguida de uma conferência entre os quatro “funcionários da transportadora aérea” (para ver se as nossas respostas “batiam certo” umas com as outras) e do visionamento de uma das nossas reportagens… e da revista das malas de trabalho… e de mais uns quantos problemas criados em relação ao excesso de bagagem… Sim. 90 minutos é tempo muito curto para ser um passageiro suspeito, mesmo que esteja a sair de Israel e não a entrar. Lá, programar mal o despertador em dia de voo não é mesmo de todo recomendável.
Saí de Israel cansado deste tipo de tratamento. Compreendi-o e aceitei-o mas obviamente não gostei e nem o tomei como natural. Que faz parte, eu sei. Que nunca será muito diferente para melhor, também sei. E que há a forte possibilidade de um dia todos nós, em todo o mundo, vivermos (como os israelitas, os americanos e mais uma mão-cheia de Povos) a olhar desconfiados por cima do ombro… infelizmente, também acho que venha a acontecer.
Que mais não seja, só por isso, já foi positivo ter conhecido a primeira parte do primeiro capítulo do compêndio do curso “Medidas de Segurança Anti-Terrorismo para Totós” (edição com valiosas anotações de taxista). Recomendo a edição traduzida do Hebraico, que é muito difícil de ler, da direita para a esquerda.